Terra de ninguém

Na Primeira Guerra Mundial o pior pesadelo dos combatentes foi o interminável desgaste de corpos e espíritos, provocado pelo entrincheiramento contínuo, uma enorme ferida sulcada na terra, cortando toda a Europa. Separando os grupos beligerantes uma extensão de terra batida por bombas, tiros de metralha, salpicada de crateras e aramados cortantes, existia uma faixa de terreno que foi chamada de “Terra de Ninguém”. Era um território onde nenhum dos lados tinha domínio. Finda a Guerra, tratadas as feridas, ficou o termo, de tristes lembranças. Longe já se vai a guerra de trincheiras. Porém, a terminologia é usada até mesmo para expressar a falta de controle, de domínio do estado encarregado da paz social, sobre espaços e sobre ações marginais que apavoram a sociedade ordeira.

                O avanço destas ações marginais sobre a vida dos cidadãos, cada vez mais amiúde, provoca neles o sentimento do desesperançado soldado, perdido, sem socorro na “Terra de Ninguém”.

                A explosão da criminalidade violenta é uma realidade que apresenta uma curva ascendente, entra ano, sai ano. A leniência, a permissividade, a irracional política de desencarceramento, a míope visão social de segmentos mais à esquerda, que veem na ação do marginal sanguinário, uma culpa social com precedentes fundados no capitalismo selvagem, soma-se à impunidade, incentiva e promove a escalada da violência, numa sociedade cada vez mais repleta de contradições. Independente da ideologia a se usar para a análise desses fatos, uma única verdade é efetiva, o sofrimento das inocentes vítimas da sanha violenta da horda bandida.

                Alguns tipos de crime violentos, dentre eles o roubo, vulgarmente tratado como assalto, apresenta-se em curva evolutiva acentuada. Já faz algum tempo que as estatísticas oficiais mostram este fenômeno. Fontes da antiga SEDS, relataram que no primeiro bimestre de 2016 os crimes de roubo em Minas Gerais apresentaram uma alta de 32,1%, comparados ao mesmo período de 2015. Foram anotados 21.808 casos de roubo. Em 2016 registrou-se 363,4 roubos por dia, sendo que em 2015, foram anotados 279,9 roubos por dia, em igual período. Em Belo Horizonte o aumento foi de 40,6%, na mesma comparação. Foram 8.230 roubos registrados em 2016, contra 5.852 registros também nos dois primeiros meses de 2015. Preocupa-se mais ainda a grave explosão do crime Extorsão Mediante Sequestro na Capital, com incremento de 166,1%. Neste último, além da violência ou grave ameaça no ato criminoso, as vítimas ficam por maior tempo à mercê de seus algozes marginais, submetidas a toda espécie de constrangimento e humilhação.

                Agravando o cenário, a utilização de armas de fogo de calibres diversos pelos marginais autores dos roubos, promove cada vez mais mortes ou ferimentos graves nas vítimas, essas com sequelas consideráveis. Nem mesmo as forças da lei e da ordem, as polícias, estão se livrando destes enfrentamentos. Apesar de muito esparsos, os dados estatísticos apontam um aumento de policiais militares mortos em serviço decorrente de enfrentamentos. Sem dúvida, aumentam também os dados de mortes de marginais pela polícia. Apesar do trombeteamento por grupos de esquerda de que a polícia é assassina, via de regra são os policiais que, recebidos à tiros, revidam. Entre a vida de um policial e a vida de muitos bandidos, fico ao lado daqueles que estão ali, por dever de ofício, defendendo a comunidade ordeira. Também não é novidade para ninguém que, nas grandes metrópoles, existem áreas dominadas pelo crime, que são verdadeiros territórios livres da lei e da ordem. A morte do policial militar da Força Nacional durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro, por haver errado o caminho e entrado em uma favela com a sua viatura, é a fotografia mais cruel desta realidade. Trocas de tiros com a polícia, coisa bem rara há algumas décadas, é lugar comum. Mesmo os marginais situados nos primeiros degraus da escalada criminosa, hoje se jactam de atirarem contra a polícia.

                A corrupção que se estabeleceu em vários nichos da política nacional, provocando a desmoralização da classe política e a desesperança, serve como pano de fundo a falta de atitudes firmes para se evitar a insidiosa submissão dos cidadãos ordeiros aos criminosos. Pode-se dizer que, guardadas as devidas proporções, a sociedade de bem luta para sobreviver na Terra de Ninguém, entre as grades de suas casas e o crescente poder marginal.

Colaboração:Vereador Coronel Piccinini

É especialista em segurança Pública e Presidente do Clube dos Oficiais da PMMG   

 

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