A perigosa inversão dos valores sociais

Deputado Coronel Piccinini

O famoso novelista e dramaturgo francês, que viveu no século IXX, Victor Hugo, era também um ativista político e defensor dos direitos humanos. É dele a famosa frase: “Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha”.

Devido ao seu atualíssimo conteúdo social, parece que esta frase foi cunhada nos dias de hoje. A sociedade de bem vem assistindo, sem se manifestar em contrário, uma perigosa inversão dos valores, cunhados justamente para garantir o desenvolvimento da civilização. Os antagonismos sociais foram se exacerbando, sem que houvesse uma efetiva intermediação e recomposição dos objetivos por lideranças que, de fato, tivessem a necessária estatura moral e ética para impor os sacrifícios, necessários a tal pacto.

A questão da sistêmica corrupção, cujas entranhas da promiscuidade entre o poder político e grandes lideranças empresariais estão sendo expostas, além do prejuízo material trazido para o bojo de toda a sociedade brasileira, quando cifras astronômicas, da ordem de bilhão, foram sendo devoradas pelo superfaturamento de obras, muitas delas, devido a seus aspectos faraônicos, iniciadas apenas para permitir isto e, pelos rios de dinheiro que mudavam de bolsos, sempre por vias escusas, deixou o feio exemplo da anticultura de que o crime pode compensar, desde que não descoberto.

A permissividade social e a leniência, cada vez mais presente no sistema de repressão aos malfeitos, somando-se a quase total ausência do poder público em vários nichos da vida em comunidade, inoculam o vírus da certeza da impunidade que serve como incentivo à prática de delitos. Achar uma carteira com valores e devolvê-la, é motivo para que soem trombetas e seja manchete preferencial na mídia. Não é que o fato deixa de ser relevante, pois é um comportamento louvável. A questão é a sua raridade hoje em dia.

As pessoas, submetidas a este estado de coisas, vão calejando suas consciências e passam a admitir algumas máximas perniciosas, como se fossem coisinhas corriqueiras, quando na verdade não o são. “Rouba mas faz”; vantagem para o meu grupo em detrimento de outros grupos; uma infração de trânsito sem que o guarda veja, ocupar assentos de idosos nos coletivos e fingir que está dormindo, deixando-os de pé; receber troco para mais e achar que é esperteza ficar calado; não respeitar filas; colar na prova; etc, etc, etc.

Com estas infrações menores, quando não responsabilizadas, inicia-se o caminho para o cometimento de outras maiores e, assim por diante, até ultrapassar a fronteira para o lado do mal, caminho quase que sem volta.

A maior prova de que este caminho vem sendo percorrido por um número crescente de pessoas, é a explosão da população carcerária. A solução apresentada pelas autoridades encarregadas da gestão do problema, além de simplista é extremamente nociva à sociedade ordeira, a política de desencarceramento. Para arranjar novas vagas em um sistema caótico, que não recupera ninguém, coloca-se de volta para o convívio em sociedade, bandidos da pior espécie, dando-lhes novamente o passaporte para a prática de novos crimes. Junta-se a isto um sistema processual-penal moroso ou sem efetividade, onde, pela falta do julgamento, também voltam às ruas crudelíssimos marginais.

Este quadro, se não contido e combatido, coloca em risco até mesmo a existência de nossas instituições governativas, imprescindíveis à democracia. Alimenta-se os lobos, enquanto as ovelhas ficam entregues à própria sorte. Uma radical mudança de postura, abraçando os verdadeiros valores sociais, é mais do que necessária. Desfazer-se dos vícios adquiridos pela lei da vantagem a qualquer custo também é necessidade premente. Fé, força e sabedoria, de resto, seguir em frente, preocupado primeiro com o que, posso fazer para melhorar a sociedade e, não o que devo fazer para tirar indevidas vantagens dela.

Colaboração:
Deputado Estadual Coronel Piccinini
É |especialista em Segurança Publica e Presidente do Clube dos Oficiais da PMMG

 

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