Aonde está o bom senso?

O bom senso, conceituado como a capacidade de quem toma decisões de maneira sensata, liga-se diretamente, às noções de sabedoria, de razoabilidade. Ele anda meio sumido!
Nas últimas semanas, dividindo lugar na discussão midiática com a corrupção, violência marginal, impunidade, questões de gênero e, diga-se de passagem, mais que ideologizada, destacam-se as questões da liberdade de expressão, levadas a quaisquer extremos. É um assunto polêmico, extremamente controverso, uma vez que não está em julgamento a razão de exercê-la simplesmente, mas, de exercê-la sem limites, sem se importar que o seu exercício possa ofender ou atente com o entendimento da maioria, em torno de qualquer fato comum, ideologia política ou crença religiosa.
A coisa está sendo levada a tal extremo, que os adeptos desta onda de liberdade de expressão sem fronteiras, bradam como um atentado à democracia, até o disposto no Código Penal Brasileiro, em sua proibição de profanação aos símbolos sagrados e de ofensas à religião, quando se trata de expor pretensa arte.
No rastro das querelas produzidas pelo cancelamento da exposição Queeermuseu em Porto Alegre que, sendo arte, soa de extremo mau gosto, fica a lição do que a falta de bom senso pode provocar. Aliás, o bom senso é a melhor invenção do comportamento humano para se evitar a censura.
À medida que o homem foi formando grupos sociais mais complexos, se fez necessário que os indivíduos abrissem mão de alguns direitos naturais em prol da convivência e da segurança que o grupo lhe propiciaria. Thomas Hobbes, 1651, foi o primeiro dos filósofos ditos contratualistas a teorizar sobre este fenômeno social que, retirando o homem do chamado Estado de Natureza, teria permitido o avanço civilizatório. Dentro deste pensamento que, de certa forma, permitiu o surgimento do estado moderno, o homem, em seu estado natural, foi sendo burilado ao longo dos séculos civilizatórios, substituindo o seu poder por critérios de uma convivência pacífica e harmoniosa. Para que isto acontecesse, apesar das guerras e outros atos que cobraram e ainda cobram alto preço em vidas e em bens, graças as autolimitações que cada indivíduo pode e deve aplicar nos seus desejos comportamentais, a humanidade muito avançou em termos do reconhecimento do direito do outro. Cuidando para que isto aconteça, como uma das peças mais importantes, está o bom senso.
O advento do novo, em qualquer de suas expressões, no mínimo, é motivo de preocupação, quando não de rejeição, pelos indivíduos que não lhes entendem as razões ou, se as percebem, sentem-nas como ameaças ao status quo do grupo. Para o melhor encaminhamento destes conflitos, aparece o bom senso, que tem no exercício da paciência o melhor caminho para a superação dos pontos contraditórios. Ao longo dos tempos, tabus foram quebrados, misticismos desfeitos, permitindo que a marcha civilizatória pudesse perseguir o mesmo objetivo, mesmo por estradas diferentes. A pedra de toque de tudo é o bom senso, que respeita as crenças do outro em sua essência de ser humano e de cidadão.
A arte que agride, que choca, exposta para esse sentido, se coloca como fora de contexto é de péssimo gosto. Os presentes aspectos provocativos da arte, propondo a discussão sobre o contraponto do que representa, como forma de expressão deveria buscar parâmetros que não a situassem no campo das ofensas ao que o outro pensa como sagrado ou basilar para a entidade família. Colocada de maneira contrária, soa como chacota ou se firma em objetivos ideológicos de desconstrução da estabilidade social com vistas a mudança da ordem. A própria democracia, usada como bandeira para afastar quaisquer limites na liberdade de expressão, é contestada por esta falta de limites, ameaçada, atacada e, muitas vezes, destruída.
O bom senso está meio sumido. O que mais se vê é a desconsideração pelo que o outro representa. A autocensura é o fator primeiro da boa convivência. Sem ela advirá a imposição de um sobre o outro com as terríveis consequências desta dicotomia, o nós contra o eles. A continuar neste ritmo poder-se-á voltar a barbárie da luta tribal, infelizmente.  

Colaboração:
Deputado Estadual Coronel Piccinini
Especialista em Segurança Publica e presidente do Clube dos Oficiais da PMMG

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