Uma infância ameaçada de ser perdida

Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, nos albores de 2018. Paralelo ao show de luzes e cores, partindo de chatas ancoradas na Baía de Guanabara, outras luzes, partindo dos belos morros que circundam a cidade, marcavam também o céu. Ao contrário das primeiras que iluminavam a esperança de um novo ano melhor, as segundas eram as tétricas emissárias do fim, da desesperança, do terror e da morte, balas saídas de armas de guerra, fuzis e metralhadoras, disparadas a esmo pelas falanges do estado paralelo da criminalidade organizada. O ano continuou caminhando e as traçadoras mortíferas, continuaram a escrever uma tenebrosa história…

A fotografia estampada pela revista Veja, edição 2571, tendo como primeiro plano um fuzil à tiracolo em um militar e, no seu ponto de fuga, o olhar, misto de medo, espanto e impotência, de uma garotinha em uniforme colegial, saltou das páginas dessa publicação e, mais uma vez, estarreceu a população de bem. É mais uma imagem do que foi sendo transformado o Rio de Janeiro, se não o estado da federação com maiores problemas de segurança pública, mas, o mais noticiado.

Ah, o Rio, sempre o Rio de Janeiro, de beleza ímpar em nosso País Tropical, que seria abençoado por Deus. Com uma história glamorosa, mas, cheia de altos e baixos, ao longo do tempo foi erigindo altares a malandragem, ao “jeitinho brasileiro” de levar vantagem sempre, retratado inclusive nos infantis desenhos de Walt Disney, na figura do “bon vivant”, Zé Carioca, eterno enamorado da cabrocha Rosinha.

A criminalidade é um fato social que permeia quase todo ajuntamento urbano, é uma praga inerente a condição humana. No Rio de Janeiro, o incremento das ações do crime organizado se deu no Governo Leonel Brizola. Mais que sabido, ideologicamente as esquerdas brasileiras são avessas a utilização da força do Estado, no combate e na erradicação do crime. Com Brizola no poder, um acordo tácito entre o seu governo e os barões do tráfico nos morros, manietou as polícias, favorecendo o surgimento de áreas conflagradas, onde o poder paralelo do crime passou a reinar absoluto. Sentindo-se com “costas largas”, esse poder assentou suas armas contra os policiais, abatendo inúmeros deles. Do medo e da insegurança exacerbada, não menos violenta veio a resposta das polícias. No fogo cruzado, ficaram os moradores dessas áreas. Desassistidos pelo poder público, vivendo à sombra da bandidagem, um número crescente deles, principalmente de crianças e adolescentes, foi sendo cooptado pelas quadrilhas, iludidos pelo poder e pelo absurdamente falso glamour que elas exercem sobre essas populações. Esse mesmo glamour, descendo ao asfalto, encantou também intelectuais, artistas, jornalistas e, extensas faixas da população da zona sul, que apostavam nos bandidos, contra a polícia. Foi a receita perfeita para o caos social.

Gradualmente e numa frequência crescente, as FFAA foram sendo convocadas para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Capital Carioca. A criação e instalação das UPPs, apesar de alvissareiras no seu começo, mostrou ser mais uma jogada de marketing político, do que um projeto sério e efetivo de recuperação dos territórios do crime. Como dar certo, onde os três últimos governadores do Estado, estão presos, encalacrados com a justiça, sem falar de outras lideranças. Desassistidas, abandonas pelo poder público, sucateadas, desmotivadas e desacreditas pela população, foi natural que as polícias acabassem por ter segmentos envolvidos pelos tentáculos do crime. Não há dúvidas que possuem ilhas de excelência, que continuam pugnando pela correta aplicação da lei e da ordem.

O Rio vive agora o remédio constitucional, da Intervenção Federal, dirigida por militares do Exército Brasileiro. Não há dúvidas, que é fruto de uma emergência extrema na segurança pública desse Estado. Absurdamente, políticos, intelectuais, entendidos e especialistas, na maioria com roupagem esquerdista, apostam no fracasso desse remédio, apenas para verem triunfar os seus objetivos e a sua ideologia. Ao contrário, torço para dar certo. Que seja detida a escalada da criminalidade que aprisiona os cariocas. Afinal, a população está cansada desse estado de guerra.

No meio de tudo isso, assustadas, apavoradas, aterrorizadas, sem entenderem o porquê de tanta violência, as maiores vítimas são as crianças. Vivendo um cotidiano de violência, com certeza levarão consigo marcas na alma. As seguidas situações de stress, como nos combatentes regulares de guerras, podem adquirir neuroses, que as acompanharão vida afora. O olhar da menina na fotografia, é o retrato mais eloquente de tudo isso, de uma infância, que pode estar sendo perdida.

Colaboração:

Deputado Estadual Coronel Piccinini.

É especialista em Segurança Publica e Presidente do Clube dos Oficiais da PMMG

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